18.12.11

Você tem açúcar?


Um dia o amor fica perfeito e este dia dura anos. Mas, dias não são anos. E, aos trancos dos lençóis, enquanto dure, o amor vive os dias de cada ano. Um dia pode ser eterno, mas, em anos pode ser enquanto dure. Pinga a rotina. Goteja as mesmas brigas e as brigas de sempre. Do sofá ninguém levanta. A televisão é o diálogo. Bom dia. Boa noite. Tela quente, sentimento frio. Não vale a pena viver de novo o tempo de namoro que era bom. Chuvisco. Próximo capítulo. A parede desbota. Um prato se quebra na cozinha. O jantar não tem brinde. O silêncio espera pelo grito. Desperdiça-se um beijo. Um abraço cai. Ninguém se mexe para levantá-lo. Melhor é achar no vizinho: “Você tem açúcar?” Ninguém viu. Cego não vê. Mas, sente. Cego é mudo. Mudo é cego. O silêncio aguarda as palavras suicidas. No criado mudo o abajur contempla os mortos. Pode apagar. Amém. Fecha o livro, mas, não termina a história. Despertador. A barriga varre a sujeira que ninguém quer enxergar. Por favor, café sem cafeína. Faz mal? Não, eu não quero acordar.

Tome nota: quantos relacionamentos perduram que já terminaram? Afinal, o sapo está em todo lugar. O príncipe ninguém acha. É a tradução do amor em todas as línguas que não foram beijadas. Eu aguento mais quantos anos em cada dia?


Você tem açúcar?

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