26.10.11

Sem vida

- Eu não aguento mais.

- Nem eu.

- E, nem sinal de onde estamos.

- É justamente isso que eu estava pensando agora.

- Então você já deve ter uma suposta resposta.

- Não tenho.

- E, porque não?

- Porque acabou a bateria do GPS.

- (nervoso) Mas, já tinha acabado a bendita droga dessa bateria.

- Por isso mesmo que a gente está aqui.

- A gente v-í-r-g-u-l-a. Você.

- Eu?

- É. Você.

- Não fala assim... (pequena pausa) Você também queria vir.

- Mas, não pra me perder.

- E, porque tanto desespero?

- Porque ninguém sabe onde estou.

- E quem deveria saber?

- Todos os meus amigos da internet.

- Mas, eu sou seu amigo e sei onde você está.

- E o que isso adianta?

- Que você tem um amigo que sabe onde você está.

- Sabe mesmo?

- Sei. Bem na minha frente.

Silêncio. Caminham para um lado e para o outro.

- Você me matou.

- Eu?

- É. Você.

- Eu não fiz nada.

- Você me matou.

- Eeuuu?

- Éééé. Você.

- Pelo que eu saiba você ainda está respirando.

- Você não entende.

- Claro que eu não entendo.

- (pensa) Me traz um caixão.

- Não dá.

- (pensa mais uma vez) Então me enterra.

- Você não está morto.

- Mas, estou sem vida.

- Você está vivo.

- Você não entende.

- É claro que eu não entendo.

- Então me faça um favor. Me deixe numa área que tenha um mísero sinal.

- (Ordena) Um passo a frente. (Depois do movimento do amigo faz um sinal de positivo com a mão).

- Eu não aguento mais.

- Nem eu.

Silêncio.

- Nada do GPS?

- Nem sinal.

- Sem vida...

Silêncio.

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